“Passageiro pagou R$ 40 em dinheiro, mas a Uber me cobrou R$ 20 — ficou com 50% da corrida”, diz motorista de app e influenciadora

Motorista de app desabafa: "Prefiro nem ver [a taxa da Uber], porque sei que não é algo que vai me deixar feliz. Não quero focar no lado negativo, senão eu desisto.”

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Entrevista
Conversas com especialistas, gestores e profissionais do setor, com perguntas conduzidas pela equipe do 55content.
Mulher jovem de cabelos loiros e lisos, usando top e jaqueta preta, posando em frente a uma parede clara.
Foto: Elizabeth Victoria para 55content

Com rotinas instáveis, insegurança nas ruas e tarifas que chegam a pagar apenas metade do valor cobrado dos passageiros, a motorista de aplicativo e influenciadora Elizabeth Victória expõe, em entrevista, os principais desafios da categoria. Atuando desde 2019, ela relata episódios de perda de 50% do valor da corrida para a plataforma, alerta para o risco crescente de assaltos — especialmente no turno da noite — e destaca a dificuldade de manter a organização financeira diante do aumento constante nos custos e da estagnação nas tarifas. Ainda assim, defende que, com estratégia, carro econômico e disciplina, ainda é possível fazer o trabalho valer a pena.

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Então, Elisa, minha primeira pergunta é: desde quando você é motorista de aplicativo e o que te levou a realizar esse serviço?

Elizabeth: Então, eu trabalho com aplicativos desde 2019. O que me levou a entrar foi a necessidade de fazer algo em paralelo ao que eu já fazia. Eu trabalhava como representante de vendas, tinha minhas marcas, era autônoma. Aí surgiu a ideia de trabalhar também com aplicativo, dirigindo como uma renda extra, né, para complementar. Mas acabou que, depois que eu comecei, fiquei só com os aplicativos.

Agora eu gostaria de saber um pouco da sua rotina. Como você se organiza? E você também é influenciadora, né? O que te levou a se tornar influenciadora? Esqueci de perguntar isso antes de falar da rotina.

Elizabeth: Aham. Eu comecei como influenciadora em 2022. Eu já tinha minhas redes, já postava bastante coisa, mas nada organizado, nada como um conteúdo específico ou profissional. Aí, depois de um tempo, a minha psicóloga me deu a ideia de começar a criar conteúdo voltado para motoristas, dar dicas e tudo mais, porque ela percebeu que muita gente me procurava perguntando sobre os aplicativos, como trabalhar, como fazer e tudo mais.

Então comecei a criar conteúdo focado só nisso, e foi crescendo. Depois me mudei para São Paulo para trabalhar mais com isso, fazer publicidade, participar de eventos — porque aqui é bem melhor. Desde junho de 2023, eu decidi que iria focar bastante nas redes sociais. Então foi assim.

E antes você morava onde? Você falou que se mudou para São Paulo.

Elizabeth: Isso, eu morava em Taubaté. Eu sou de Taubaté. Taubaté fica no Vale do Paraíba. E aqui em São Paulo eu tenho família — a família da minha mãe é daqui. Eu já vinha para cá algumas vezes para fazer viagens particulares para alguns clientes que eu tinha em Taubaté. E aí, depois que comecei a trabalhar com as redes sociais, pensei: “Vou me mudar para lá, porque não quero ser só motorista de aplicativo. Quero participar dos eventos, de tudo o que tem em São Paulo.”

E agora eu gostaria de saber um pouco como é a sua rotina, que era a pergunta que eu estava tentando lembrar antes. De que horas até que horas você trabalha? Você folga algum dia? Você segue algum tipo de planejamento?

Elizabeth: Então, independente de quantas horas eu trabalhar, só volto para casa se eu faturar R$ 300 a R$ 350. Agora minha rotina está muito aleatória, porque estou trabalhando em outra empresa também. Além disso, faço os aplicativos e cuido das minhas redes sociais. Então meu dia é uma bagunça, cada semana é diferente da outra.

Normalmente, eu trabalho mais à noite. Gosto mais de trabalhar da tarde para a noite. Sempre preferi esse horário, a madrugada aqui em São Paulo tem menos trânsito. Eu rendo muito mais do que se trabalhasse o dia todo, começando cedo. Então, na maioria das vezes, estou na rua à noite.
Agora, como o aplicativo não é mais minha única fonte de renda — tenho um salário fixo da empresa e ganho com publicidade —, minha meta no app diminuiu. Hoje, minha meta é faturar em torno de R$ 1.200 por semana.

Isso é o faturamento, né?

Elizabeth: Isso. Antes, quando era só o aplicativo, minha meta era de R$ 2.000 a R$ 2.500 por semana. Agora aliviou, porque tenho outras fontes de renda para complementar.

E agora, falando um pouco sobre seus custos: quanto você costuma gastar com gasolina por dia ou por semana?

Elizabeth: Então, com combustível, eu tenho uma rotina diferente. Não sou aquele tipo de motorista que enche o tanque e espera acabar para abastecer de novo. Gosto de colocar, por exemplo, R$ 70 por dia.

Parece que eu trabalho bem com esse valor, e é sempre baseado nisso.

Entendi. Você trabalha com o seu próprio carro? Com o Kwid?

Elizabeth: Sim, o carro é meu.

E esse Kwid roda só no UberX ou também no Comfort?

Elizabeth: Só no X.

E você trabalha com outros apps também? Tipo inDrive, 99?

Elizabeth: Sim, eu faço inDrive, 99 e Uber. Uso os três.

Agora, comparando quando você começou com hoje: você sente que está mais difícil ser motorista de aplicativo? Está mais difícil conseguir um bom faturamento, ter lucro? Muitos motoristas dizem que as taxas não melhoraram, mas os custos aumentaram. O que você acha?

Elizabeth: Eu acho que continua difícil, sim. A gente tem que sempre bolar estratégias para trabalhar nos melhores horários, pegar as melhores corridas, porque o valor das corridas não aumenta.

Vou falar um pouco de Taubaté, onde trabalhei a maior parte do tempo só com aplicativo. Lá, no ano passado, quando eu não estava mais, as coisas ficaram bem difíceis para quem continua só com o app. As corridas estão pagando muito mal.

Se você vai alugar um carro para trabalhar lá, já não compensa mais. O valor que pagam nas corridas em Taubaté é muito baixo. Aqui em São Paulo melhora um pouco, mas tem que ter muita estratégia.

Na minha opinião, a cada ano que passa o valor do aluguel aumenta, os carros subiram muito, e tem ainda manutenção, pneu, óleo, gasolina, seguro… Tudo está aumentando, e as corridas não acompanham esses aumentos.

Você saberia me dizer, mais ou menos, qual é a taxa da Uber? Quanto ela fica para ela?

Elizabeth: Não. Faz tempo que não vejo isso. Aqui em São Paulo, eu rodo só no cartão. Então vejo apenas o valor que estou recebendo.

De vez em quando, quando eu ligo a opção de pagamento em dinheiro, e vejo que a pessoa pagou, por exemplo, R$ 40 e eu recebi R$ 20, aí percebo a taxa da Uber.
Mas rodando só no cartão eu nem percebo e nem corro atrás para ver, porque sei que não é algo que vai me deixar feliz. Prefiro não olhar, entendeu?

Sério, eu prefiro nem ver para não ficar de mau humor. Eu penso: “Vou trabalhar, fazer o melhor que eu posso e não quero focar no lado negativo, senão eu desisto.”

Sim. Mas já aconteceu de a passageira pagar R$ 40 e você ficar só com R$ 20?

Elizabeth: Já, já aconteceu. Em Taubaté eu via muito isso. Lá é praticamente impossível rodar só no cartão, como aqui. E lá aconteciam coisas absurdas. Você via que fez uma corrida em que o passageiro pagou um valor, e você recebia metade. A Uber comia metade.Tem corrida que ela paga bem, mas tem outras que ela tira muito também.

Minha próxima pergunta é em relação aos desafios. Para você, qual é o maior desafio de ser motorista de app e, particularmente, qual é o maior desafio de ser influenciadora? São as críticas, os haters, a gestão de tempo entre os trabalhos de motorista e criadora de conteúdo, a criatividade…? Como é isso para você?

Elizabeth: Então, como motorista, eu acho que o maior desafio é a organização. Para você ter um bom rendimento, é preciso ser muito organizado financeiramente. Tem que saber separar o que é para manutenção do carro, o que é para o aluguel (caso pague), o que é reserva para um imprevisto. Porque a vida do motorista se complica quando acontece algo fora do previsto.

Ah, o carro quebrou, ficou parado alguns dias, aconteceu alguma coisa… e aí vira uma bola de neve. Uma conta aqui, outra ali, e o motorista acaba fazendo empréstimo. Então, acredito que o maior desafio é a pessoa ter organização financeira, saber equilibrar as contas para ter uma saúde financeira boa e não ficar naquela angústia de “preciso trabalhar 24 horas por dia senão não dou conta das minhas contas”.
Vejo muita gente desesperada, que bateu o carro, ficou sem carro para trabalhar, e não tem nem dinheiro para dar a caução e alugar outro. Então, organização financeira, para mim, é o maior desafio.

Em segundo lugar, acho que vem a segurança. Os motoristas sofrem muito com assaltos. Aqui em São Paulo, é muito vidro quebrado para roubar celular, sequestro, agressão, brigas… Essa parte de segurança é o segundo maior desafio, na minha opinião. E ainda mais para a gente, né? A gente que é mulher, é ainda mais perigoso.

E você ainda falou que gosta de trabalhar à noite, né?

Elizabeth: É. Eu acho que, para uma mulher enfrentar essa profissão, tem que saber se impor bastante, sabe? Tem que se posicionar de uma forma que as pessoas não te vejam como uma pessoa frágil. Infelizmente, a mulher já é vista como frágil, delicada… então a gente tem que saber encarar esse ambiente de trabalho de forma a impor respeito e autoridade dentro do carro, para ninguém tentar abusar.

Eu nunca tive problema com passageiro, porque acho que sempre mantive uma postura firme no meu carro, de não dar bola, sabe? Tem que ter um posicionamento. Não dá para se mostrar vulnerável, com medo. Quando você demonstra medo ou insegurança, parece que as pessoas sentem isso, né?

Faz sentido. E como influenciadora?

Elizabeth: Então, como influenciadora, eu dependo muito da minha criatividade. Acho que esse é o ponto principal para quem quer criar conteúdo na internet. E eu sou assim: tem dias que produzo, tem dias que não produzo. E eu tive que aprender que isso é normal, para não me estressar e não desistir.

Antes de começar, eu vivia querendo desistir. Mas entendi que as coisas acontecem num processo lento. Quem quer trabalhar com internet precisa saber que não é de um mês para o outro que vai ter milhares de seguidores e muito conteúdo. Tem pessoas com mais facilidade para criar, editar, postar… você vê que toda semana elas estão ali com constância. Mas como eu faço outras coisas no meu dia a dia, não consigo manter essa frequência tão forte. Então, para mim, um dos maiores desafios é manter essa constância.

Às vezes eu preciso ser criativa e não consigo. Já fechei parceria que precisava entregar vídeo e fiquei a semana inteira com bloqueio criativo, não saia nada.Quando o parceiro precisa de um prazo, eu tento sempre explicar: “Olha, quando eu entregar, vai ser com qualidade, mas às vezes demora.”

Depende muito de como tá minha rotina. Às vezes, é dirigindo à noite que bate uma ideia. Eu sou muito acostumada com isso. Tô dirigindo, passageiro quietinho, e minha cabeça vai longe pensando em vídeo, conteúdo, ideias. Às vezes, termino a corrida e, se não tiver outra, paro o carro e começo a produzir.
Monto vídeo, edito, gravo narração. Meu processo criativo acontece muito assim, enquanto estou dirigindo, esparecendo.

Mas quando tenho uma entrega com prazo marcado, eu preciso saber lidar com isso, porque a criatividade nem sempre vem no momento certo.A internet também exige que você saiba lidar com os resultados. Isso, para mim, não é um problema, porque já estou na internet desde antes do Instagram virar moda.

Sou da época do MSN, do Orkut… então ver opinião dos outros, xingamentos, essas coisas, para mim, já é comum. Quando começou essa onda do Instagram, eu acompanhava muitas blogueiras que admiro e vi todas passando por fases ruins: ataques, julgamentos… algumas até desistiam. Então eu levei isso como aprendizado. Pensei: “Quero tratar isso já na terapia”, que é algo muito bom para quem quer trabalhar com internet.

Ter a mente boa e sã é essencial. Sempre tratei isso na terapia: como lidar com crítica, ataque, julgamento… sem surtar, sem dar audiência para esse tipo de coisa. Porque isso vai acontecer sempre. Não é só um ano. Vai ser sempre. As pessoas sempre vão querer fazer o que você faz ou vão criticar o que você faz — muitas vezes são pessoas que não fazem nada. Coloquei isso na minha cabeça. Hoje não tenho problema com crítica. Não dou bola, não dou ibope para assuntos polêmicos.Sou tranquila. Gosto de tirar o melhor da internet.
O ruim eu deixo quieto, porque senão eu realmente desisto. Coisa ruim tem de monte, né?

E minha próxima pergunta: você falou que seu faturamento semanal está em torno de R$ 1.200, certo? 

Elizabeth: Isso, semanal.

Mensal, então, dá em torno de R$ 4.800?

Elizabeth: Isso, bruto, só no aplicativo.

Bruto. E tirando tudo, fica em torno de quanto?

Elizabeth: Ah, eu acho que dá uns R$ 3.000… espera, deixa eu fazer uma conta rápida para não te dar um valor errado. Antes, quando eu trabalhava só com Uber lá em Taubaté, eu sabia de cabeça. Agora recebo de vários lugares — tenho comissão de outras coisas — então nem sei o valor exato.

Mas se for ver… Meu carro é um Kwid. Isso só tirando combustível, né? Sem contar com o resto.Minha meta diária normalmente é R$ 300, mas como estou em dois trabalhos, nem sempre bato essa meta todos os dias. Então estou me baseando num valor menor: R$ 3.500, R$ 3.600 por mês.

Minha próxima pergunta — já estou finalizando — é: que dicas você daria para quem está começando nesse trabalho? E você ainda acha que vale a pena ser motorista de app em 2025?

Elizabeth: Vale a pena, dependendo do carro que você vai usar, dos custos mensais, se paga aluguel ou não.  A dica que dou é procurar um carro econômico, com manutenção barata e a menor parcela possível. Mas a dica principal é a organização financeira. Saber quanto está ganhando por dia, economizar, ter uma reserva de emergência para, se um dia quebrar alguma coisa, já consertar e não ficar parado.

Então é isso: Escolher um bom carro, com manutenção barata, parcela baixa e estudar a região onde vai trabalhar. Se for em São Paulo, estudar bem o bairro, as áreas boas…  E ter constância: começar sempre no mesmo horário todos os dias. Isso ajuda a tirar um resultado melhor dos apps.

Você é uma motorista muito seletiva nas corridas? Você só aceita a partir de determinado valor por quilômetro?

Elizabeth: Sou. Costumo pegar sempre de R$ 2,00 o km para cima. Só aceito menos se estiver numa região que sei que é difícil tocar e eu precisar voltar para uma área boa. Aí aceito de R$ 1,60 a R$ 1,70, tudo depende da situação. Mas, se puder, priorizo sempre de R$ 2,00 para cima por km.

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Giulia Lang

Giulia Lang é líder de conteúdo do 55content e graduada em jornalismo pela Fundação Cásper Líbero.

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