Há 8 anos, a tarifa mínima da Uber era de R$ 5,50 e hoje continua R$ 5,50

Motorista de app conta: “em 2017 faturava até R$ 800 por dia, hoje faturo R$ 200 e metade vai para a gasolina.” Então, Dona Maria, o objetivo dessa conversa é entender um pouco mais sobre o seu trabalho como motorista de aplicativo. Para começar, quando a senhora começou a trabalhar nesse serviço?

Mulher de cabelos cacheados e óculos posa para uma selfie em um ambiente interno com iluminação suave. Ela veste uma blusa de alças e tem uma expressão serena no rosto.
Foto: Maria Lucia para 55content

Trabalhar como motorista de aplicativo já foi um bom negócio, mas, com o aumento dos custos e a falta de reajuste das tarifas, muitos profissionais enfrentam dificuldades para se manter na profissão. É o caso de Maria Lucia Toledo de Campos, que começou a dirigir no Rio de Janeiro em 2017 e, após uma pausa, retomou a atividade no Rio Grande do Norte. Hoje, ela trabalha apenas no período da manhã e conta como os altos custos do combustível, a baixa remuneração e a rotina exaustiva impactam o dia a dia de quem depende do volante para complementar a renda.

Então, Dona Maria, o objetivo dessa conversa é entender um pouco mais sobre o seu trabalho como motorista de aplicativo. Para começar, quando a senhora começou a trabalhar nesse serviço?

Maria Lucia: Olha, eu sou do Rio de Janeiro, mas atualmente moro no Rio Grande do Norte. Comecei a trabalhar como motorista de aplicativo lá no Rio, há uns oito anos. Depois, dei uma parada e, mais recentemente, resolvi voltar a dirigir.

Oito anos? Então a senhora começou em 2017 ou 2018?

Maria Lucia: Isso, foi por volta de 2017 ou 2018.

Agora que a senhora voltou, como é a sua rotina? De que horas a que horas trabalha? Tem um horário fixo? Quantas horas por dia costuma dirigir?

Maria Lucia: Antes, no Rio, eu trabalhava cerca de oito horas por dia. Mas aqui, no Rio Grande do Norte, estou trabalhando só no período da manhã. Saio cedo e fico até meio-dia ou uma hora da tarde, depois paro. Aqui faz muito calor, e meu carro é um motor 1.0, então o ar-condicionado não é muito forte. Se fico rodando no centro, onde o trânsito é intenso, o ar não dá conta e os passageiros começam a reclamar.

No Rio, eu dirigia um carro 1.6 e usava gás natural, o que ajudava bastante no custo. Mas aqui, a gasolina acabou sendo mais vantajosa porque o gás ficou muito caro.

Então a senhora trabalha apenas pela manhã?

Maria Lucia: Exatamente. Além disso, já não sou mais tão jovem, então também preciso me preservar.

A senhora trabalha com alguma meta diária? Tipo, precisa faturar um valor específico por manhã?

Maria Lucia: Sim, tento me basear em uma meta financeira. Isso porque o custo do combustível aqui no Rio Grande do Norte é um dos mais altos do Brasil. Eu moro a 30 km de Natal, e só para ir até lá já gasto bastante.

O que me revolta na Uber é que eles cobram muito pouco por viagens curtas. Às vezes, uma corrida sai por pouco mais de cinco reais, o que não paga nem um litro de gasolina, que aqui custa quase sete reais. Além disso, tem o tempo e o deslocamento até o passageiro. Às vezes, dirijo três, quatro ou até cinco quilômetros só para buscá-lo, e a corrida em si pode ser curta. No fim das contas, gasto mais de um litro de gasolina e lucro praticamente nada. Isso torna o trabalho muito difícil.

Muitos motoristas da Uber em Natal também estão recusando corridas de valores tão baixos?

Maria Lucia: Sim, muita gente aqui em Natal está recusando essas viagens porque simplesmente não compensa. Principalmente quando temos que dirigir vários quilômetros só para pegar o passageiro.

A senhora mencionou que não mora em Natal, mas a 30 km de distância. Quando sai de casa, já pega uma viagem direto para a capital?

Maria Lucia: Não, normalmente saio sem viagem. Vou dirigindo devagar ou paro em algum ponto no caminho, esperando aparecer alguma corrida em direção a Natal. Às vezes, pego passageiros até uma cidade vizinha chamada Parnamirim e, de lá, sigo trabalhando.

Outra questão complicada aqui no Rio Grande do Norte é que, em alguns municípios, a Uber te chama para uma corrida saindo de Natal, mas, ao chegar no destino, não há viagens de volta. Ou seja, dirigimos até lá levando um passageiro, mas voltamos sem ninguém, o que gera prejuízo. Por isso, os motoristas agora evitam esses locais, pois acaba sendo um gasto desnecessário.

A senhora costuma recusar muitas corridas?

Maria Lucia: Não, só recuso quando a corrida realmente não vale a pena. Por exemplo, viagens muito curtas ou, em Natal, quando o trânsito está muito congestionado, o que faz o consumo de combustível aumentar. Mas, de modo geral, não sou de recusar viagens.

O quanto a senhora ganha mesmo, em média, por quilômetro rodado?

Maria Lucia: As corridas que eu pego geralmente pagam algo em torno de R$ 10 a R$ 15.

E essas corridas costumam ter quantos quilômetros?

Maria Lucia: Normalmente, entre 10 e 18 quilômetros.

E quanto a senhora fatura por mês trabalhando dessa maneira?

Maria Lucia: Olha, varia bastante. Como estou trabalhando menos, e também porque fico muito cansada por passar tanto tempo sentada, tenho sentido até problemas na perna. Atualmente, como não trabalho aos sábados e domingos, meu faturamento gira em torno de R$ 1.500 a R$ 2.000 por mês. Para mim, esse trabalho agora funciona mais como uma complementação da minha aposentadoria, porque eu não consigo mais encarar aquela rotina de 8, 10 ou 12 horas por dia. É muito cansativo. Às vezes, tento trabalhar um pouco à noite, quando está mais fresco, mas também há muitos semáforos, muito movimento, o que dificulta bastante.

E tirando os custos com gasolina, quanto sobra no final do mês?

Maria Lucia: Olha, eu costumo faturar entre R$ 1.200 e R$ 1.500, mas gasto entre R$ 500 e R$ 700 só com gasolina. Isso significa que quase metade do que eu ganho vai para combustível. Se incluir os custos de manutenção do carro, às vezes o lucro cai ainda mais. É por isso que estou até pensando em parar com esse trabalho, porque é muito cansativo e, no fim das contas, o que sobra não compensa o esforço. Muita gente olha para o faturamento, mas o lucro real é outra história. Você pode faturar R$ 2.000 ou R$ 3.000, mas, depois de todos os gastos, o que realmente sobra é bem menor. E se você não reservar parte desse dinheiro para manutenção do carro, uma hora ele quebra e os custos aumentam ainda mais.

A senhora começou a trabalhar com aplicativo em 2017 ou 2018. Naquela época, era mais fácil ser motorista?

Maria Lucia: Com certeza! Primeiro, porque o combustível era bem mais barato. Eu trabalhava com gás, e ele não chegava nem a R$ 1 por metro cúbico. Com um tanque, eu conseguia rodar 200 a 300 km. Trabalhava umas 8 horas e gastava, no máximo, R$ 50 de gás por dia.

Outro ponto é que, há oito anos, a tarifa mínima da Uber era de R$ 5,50. E hoje, depois de todo esse tempo, continua a mesma coisa! Isso é um absurdo! O custo de vida subiu, o preço de tudo aumentou, e a Uber ainda paga o mesmo valor por corrida curta. Isso torna o trabalho muito mais difícil.

Naquela época, a senhora conseguia faturar mais?

Maria Lucia: Sim, eu faturava bem mais. Conseguia fazer entre R$ 700 e R$ 800 por dia. Dava para ganhar um bom dinheiro. Hoje em dia, o máximo que consigo faturar, com o tempo reduzido de trabalho, é R$ 200 por dia, e metade disso vai para os custos.

Além disso, antes havia muito mais demanda. Como a Uber estava no início, muita gente usava o aplicativo e os pedidos eram constantes. Hoje, o número de motoristas aumentou e os custos subiram muito. O preço dos pneus, por exemplo, é muito maior do que era há oito anos.

Então, atualmente, a senhora fatura quanto por dia, em média?

Maria Lucia: Como eu disse, no máximo R$ 200 por dia, mas quase metade disso vai para gasolina.

A senhora já trabalha com aplicativos há bastante tempo. Quais são as maiores dificuldades dessa profissão?

Maria Lucia: Tirando o alto custo do combustível, uma das maiores dificuldades é o valor muito baixo das corridas curtas. Aqui no Rio Grande do Norte, a gasolina é uma das mais caras do Brasil. Além disso, as ruas são muito ruins, cheias de buracos, e há muitas estradas de terra. Isso aumenta ainda mais os custos de manutenção do carro.

E que dicas a senhora daria para quem está pensando em começar a trabalhar como motorista de aplicativo?

Maria Lucia: Se tiver outra opção, não trabalhe com isso. Não vale a pena. É melhor procurar outro bico.

Por quê?

Maria Lucia: Porque a manutenção do carro é cara, o combustível é caro, e a Uber paga muito pouco pelas corridas. Como eu disse, a gasolina aqui no Rio Grande do Norte está entre as mais caras do Brasil, e a Uber deveria ajustar os valores conforme o custo do combustível em cada cidade. O que acontece hoje é que o valor mínimo das corridas é o mesmo para todo o país, independentemente de onde a gasolina for mais cara. Isso prejudica muito os motoristas.

Picture of Giulia Lang
Giulia Lang

Giulia Lang é líder de conteúdo do 55content e graduada em jornalismo pela Fundação Cásper Líbero.

Pesquisar